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IEVV SEITAFaz pouco tempo que alguns amigos e familiares comentaram surpresos comigo sobre a notícia de que a IPB - Igreja Presbiteriana do Brasil - havia lançado uma nota "considerando a Igreja Evangélica Verbo da Vida como seita". Também fiquei surpreso inicialmente, mas algo me intrigava com a notícia. Cheguei a achar até mesmo que poderia ser falácia ou algum mal entendido, no entanto, quando vi a quantidade de reportagens em diferentes blogs e sites de notícias sobre o "mundo gospel" - contendo ainda uma cópia do digesto da Secretaria Executiva da IPB - me dei conta de que a coisa era realmente séria! Minha segunda reação foi de indignação contra a IPB, afinal, "quem foi que deu à igreja presbiteriana autoridade para definir o que é seita (ou heresia) e o que não é?". No entanto, antes de me pronunciar neste blog em uma dura crítica à "prepotência da IPB", pensei: "Afinal, por que a IPB faria isso? Ela teria simplesmente escolhido a IEVV aleatoriamente só pra fazer um escracho público?" Resolvi consultar as fontes dos primeiros sites que publicaram a notícia. Isso me levou à plataforma iCalvinus, site onde a Secretaria Executiva da IPB disponibiliza seu anuário, digesto, atas e documentos oficiais. Pesquisei até encontrar o tal documento em que a IPB se pronunciava a respeito da IEVV. Eu só queria encontrar o mesmo ementário publicado nos outros sites, mas, melhor do que isso, sem querer, acabei encontrando todo o histórico de documentos anteriores, desde o início da história em 2011, até seu desencadeamento em 2014, três anos depois.apontando_o_dedo
Trata-se do documento 110 do ementário do Supremo Concílio de 2014, em resposta à consulta oriunda do Sínodo de Garanhuns e do presbitério do Vale do Pajeú em 2012 sobre o posicionamento da IPB sobre a Igreja Evangélica Verbo da Vida (CE-SC/IPB 2012, Doc. CLXII) - disponível no site supracitado.
Mas afinal, por que o Sínodo de Garanhuns solicitou um posicionamento do Supremo Concílio sobre a IEVV? O motivo é citado no ofício número 4/2011 do Presbitério do Vale do Pajeú ao Sínodo de Garanhus: "O PRVP em sua última Reunião Ordinária decidiu consultar à IPB quanto ao reconhecimento da Igreja Verbo da Vida como igreja co-irmã, considerando que a mesma apregoa práticas doutrinárias estranhas às Escrituras Sagradas, bem como uma prática proselitista para com nossas igreja, visitando os nossos membros comungantes e congregados trazendo confusão em nosso meio. Serra Talhada, 28 de junho de 2011. Fraternalmente em Cristo Jesus". IPB
O documento segue com as respostas oficiais a essa solicitação, desde 2011 até 2014.
A princípio pensei: "haviam tantas formas mais simples de se resolver esse problema!", mas depois achei interessante a postura dos responsáveis por aquela congregação que, ao invés de simplesmente tomar uma dura postura por conta própria, resolveram recorrer a suas autoridades superiores, a fim de não se encontrarem aconselhando suas ovelhas contra uma igreja co-irmã - mesmo após constatar o que estavam vendo de errado. Afinal, isso não foi diferente em Belo Horizonte com a popularização do Centro de Treinamento Bíblico Rhema Brasil, seminário administrado pela IEVV em diversos estados brasileiros e em outros países. O "final" da história é o que foi noticiado em 2014 em diversos sites gospel, provocando indignação em alguns, motivo de chacota para outros e o sentimento de "eu já sabia" no coração de muitos moralistas puxa-saco da IPB.
Enfim, conhecendo melhor agora "os dois lados da história", acredito que seja possível construirmos um espaço mais justo de discussão sobre o caso sem simplesmente tomar partido de um lado por afinidade com ele ou por ódio do outro. Particularmente, achei que a IPB "pegou pesado" com a decisão de decidir rejeitar o batismo e a profissão de fé de um crente advindo da IEVV para suas congregações e de não considerar a IEVV como igreja co-irmã em Cristo (Resoluções 2 e 3 do Digesto Online). Como anglicano, acredito que todo crente batizado "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" - algo que a IEVV faz questão de guardar entre suas doutrinas - é um irmão na fé e seu batismo não pode ser invalidado, independentemente das condições morais ou racionais de quem batizou aquele crente, seja de segmento católico ou protestante.
RHEMANão posso terminar esse artigo sem deixar de dizer que, no período de dois anos em que convivi com o ministério Verbo da Vida, por ocasião do curso que fiz no CTB-Rhema Brasil, apesar de não concordar com grande parte de seus ensinamentos e de considerar muitos deles como heréticos e destruidores da genuinidade, da pureza e da humildade da fé cristã, a Igreja Evangélica Verbo da Vida é uma igreja cristã séria e de sincero comprometimento com as doutrinas bíblicas básicas, recitadas sempre na abertura das novas turmas do Centro de Treinamento Bíblico Rhema Brasil.
Afinal de contas, Seita é seita, heresia é heresia. Do ponto de vista epistemológico, cada denominação, cristã ou não, é uma seita (segmento, doutrina). Um é da seita batista, outro da assembleiana, outro da Wesleyana e eu, da católica anglicana. Agora, heresia, creio que seja um fenômeno suscetível a qualquer um que tente interpretar as verdades eternas das Escrituras a partir da nossa temporalidade humana. Enfim, heresia é um fenômeno bem presente em cada uma dessas seitas, às vezes mais, às vezes menos.
Com amor, em Cristo Jesus.

Postado em 19 de agosto de 2014 no Blog "Estou em Obras".
748046_98432589Quando penso na igreja evangélica hoje, me lembro da história da igreja cristã. Após a apropriação da ideia da universalidade da igreja levada ao extremos de centralização de seu governo em Roma, orientando suas práticas e culturas - como se devesse existir uma cultura especificamente cristã - e suprimindo todas as diferentes expressões culturais tocadas por Cristo Jesus, um poder hegemônico de representações, valores e visão de mundo foi se formando. Logicamente cada cultura dominante de seu tempo legitimava e imprimia ideologicamente seus valores através da igreja cristã ao longo da história numa marcha desumana em nome de Deus e do Homem.
Depois a igreja se divide entre protestantes, católicos, veterocatólicos e ortodoxos e essa dinâmica continua, muitas vezes de maneira ainda mais perversa entre os protestantes (normalmente mais radicais).
Hoje, o que vejo no Brasil é, nada mais nada menos que uma imposição descarada de uma ideologia meritocrática, paternalista, anti-esquerdista e declaradamente liberal americana (de liberalismo político e econômico - não estou falando de teologia liberal no momento). Esse corpo ideológico é imprimido através de pregações, músicas, teatros, evangelismo, etc. como se fosse a definição própria do que é "correto aos olhos de Deus". Criticar? Nem pesar! "A bíblia nos manda obedecer". Protestar? De maneira nenhuma! Afinal, "os rebeldes não vão entrar no reino dos céus!" Hoje até os "demônios" pregam nos púlpitos a moral esperada pelo sistema. O vídeo que se segue é um exemplo disso em um nível um pouco exagerado, mas que não isenta outras igrejas acabar por fazer o mesmo em suas práticas.
Provavelmente vou ouvir coisas como: "a igreja evangélica não é uma só" ou "aqui na minha igreja é diferente". Nesse caso, parabéns aos diferentes! Mas aos demais esclareço que o que estou afirmando é que, independentemente das diferenças denominacionais, a maioria das igrejas evangélicas carregam esses valores em comum, mesmo mantendo suas divergências teológicas e de usos e costumes. O que estou falando vai muito além desse tipo de divergência. Estou falando de um tipo de senso comum evangélico.
PROSTITUIÇÃO
Estou falando de um abandono do inconforto humano da igreja-instituição em seguir o Evangelho e de uma consequente prostituição da mesma com os valores mundanos.
O senso comum é tão forte que parece que essas interpretações de mundo estão escritas mesmo na bíblia! E o pior é ver os pastores dizendo que não podemos nos amoldar aos padrões "do mundo" enquanto essa própria igreja é a expressão e a escola dos valores mundanos individualistas, meritocráticos, moralistas e totalmente hipócritas. O que invariavelmente vem criando um sistema exclusivo de costumes e crenças e excludente de pessoas que não se amoldam ao mesmo. Esses são os "rebeldes", os "filhos do cão", os "picuinhas", como ouço com frequência.
E assim prossegue a marcha dessa coisa chamada de igreja, uma instituição que ao longo da história possui sempre a cara (histórica e cultural) da cultura hegemônica e ao mesmo tempo, por ser o lado "gospel" dessa cultura, fica totalmente separada do mundo - não no sentido de santidade - no disco voador de Gizuis. Fico triste em dizer isso porque sou cristão, mas não posso negar o que vejo. Pior do que isso é ser considerado normalmente um rebelde nesse meio. Me conforto somente ao lembrar que foi assim com os profetas, com João Batista, Jesus, Paulo, Lutero e os demais que lutaram minimamente contra esse conforto religioso de se amoldar à lógica mundana e abandonar a lógica da Graça.
apontando_o_dedo
A questão aqui não é discernir se a sua igreja está nesse contexto, mas sim a que nível ela já está mergulhada no mesmo. Estou falando de algo que não é característica exclusiva de neopentecostais, de tradicionais ou ortodoxos. É característico de todas as igrejas ao longo da história. Espero que esta reflexão o leve pensar sobre você mesmo (a), sobre até que ponto você como ser humano psico-histórico-cultural e tocado (a) um dia pelo Evangelho de Cristo tem prostituído o que você é - nova Criação - com valores totalmente contrários à sua nova natureza em Cristo Jesus.
O que defendo a nível de igreja não é nem sua desinstitucionalização nem uma reforma da igreja institucional. Independentemente disso defendo o amor radical pelo próximo, pelos inimigos, pelos oprimidos em especial, pelos "diferentes" - até que todos percebam que o "sistema cultural evangélico" definitivamente não o os define completamente, pois estão carregados de culturas nas quais se identificam e essa diversidade é uma riqueza para Cristo e embeleza a IGREJA INVISÍVEL. Enfim, defendo o Evangelho e o Evangelho, por sua vez, defende a humanidade dos seres humanos.

J.M.S. Jr.
Postada em 10 de março de 2014 no Blog "Estou em Obras".