Por Rev. Eric Rodrigues*
Algumas pessoas dizem que algumas paróquias anglicanas “não são tão anglicanas assim”,
geralmente o comentário é relativo à plástica litúrgica, como se os “anglicanos mesmo”, fossem mais “católicos”.
Mas isto não passa de um grande equívoco. Quem pensa assim não compreendeu uma
coisa que pode ser considerada uma grande pérola presente na vida da comunhão
anglicana, e é uma característica marcante do corpo de Cristo: a elasticidade das formas em harmonia com
uma essência plácida e solida[1].
Então se faz preciso ampliar a compreensão do termo “católico” e resgatar a
noção real do “Ethos Anglicano”, que pode ser compreendido como versatilidade.
Nossa estabilidade identitária não é estática, mas multivalente. O enrijecimento das formas – ou melhor, de
uma única forma – e a falta de diálogo com a cultura contemporânea são, em si,
experiências anglicanas pequenas. Jamais representaram modo de viver desta
igreja. Então esta ideia de que a legitimidade anglicana está no ritualismo
fechado é uma tremenda bobagem! Vemos hoje pelo mundo igrejas anglicanas que
assumiram uma roupagem tanto estrutural quanto litúrgica bem leves e
contemporâneas, sem negociar ou perder o vínculo forte com a tradição, mas, pelo
contrário, estão evitando que ela morra! É de se admirar que alguns ainda
pensam que fidelidade e criatividade não possam caminhar de mão dadas, visto que
não são conceitos antagônicos, nem contraditórios e nem mesmo contrapostos. Ser
tradicional significa saber de onde veio, reconhecer e valorizar as raízes que
sustentam nosso presente e não um saudosismo melancólico ou uma resistência a
viver o tempo presente.
O esforço de contextualização e dialogo não é feito às
escuras nem em sigilo, pois não há nada a esconder. Não há regras sendo
desprezadas ou desobedecidas. Ao contrario disto, há um entusiasmo e
encorajamento feito pelas instâncias superiores da comunhão. Veja esta
declaração do Conselho Consultivo Anglicano:
As Conferências de Lambeth de 1867, 1888, 1897 e 1908
reconheceram a necessidade de adaptar e
enriquecer os ofícios do Livro de Oração Comum e Administração de
Sacramentos e Outros Ritos e Cerimônias da Igreja, de acordo com o uso da
Igreja da Inglaterra, a fim de ir ao encontro das necessidades e condições das
raças e países de além-mar. Porém, com o desenvolvimento da consciência das
Igrejas nacionais (indígenas, como se dizia na época), há uma exigência bem
difundida nos campos missionários para
não só proceder a adaptação e enriquecimento dos Livros existentes, mas também para criar formas e ofícios
construídos de outra maneira. O princípio da uniformidade exposta no Prefácio
do Livro inglês (o qual não foi elaborado à luz das condições hoje existentes
nos campos missionários) não é aplicável às dioceses e Províncias no campo
missionário, nem é em si mesmo necessário como laço de união entre as Igrejas
com as quais temos a unidade de fé.[2]
Geralmente quando se fala de catolicidade no anglicanismo logo se
faz menção aos herdeiros do movimento de Oxford, que foi uma inquietação dentro
da igreja anglicana no Séc. XIX. Nascente entre clérigos residentes na
Universidade de Oxford que tinham uma preocupação legitima de reavivar a fé do
povo inglês. Eram evangelistas e saiam às ruas para entregar folhetos sobre
Cristo, sobre a necessidade de haver limites mais rígidos entre os poderes
seculares que dominavam e a igreja. Entretanto, eles supervalorizavam a regeneração batismal, acreditavam que a presença de
Cristo na eucaristia não era apenas real, mas substancial; eram extremamente
ritualistas e defendiam uma estreita ou quase neurótica relação com Livro de
Oração Comum, que tinham como um livro que serve o povo, uma diretriz útil no
serviço do culto do povo de Deus. Pelo contrário, queriam um culto que é cativo
da formula presente no livro.
A palavra liturgia vem da junção de dois
termos: laós e érgon, isto é, povo e trabalho (ou ação). O trabalho (ou serviço)
do povo ao seu Deus acontece de forma dinâmica desde sempre. No Antigo Testamento
temos uma constante produção litúrgica, com ritos festas e rituais que vêm da
vida do povo, em alta relação com seus costumes locais e particulares. Liturgia
não é um frio movimento “de fora” para dentro do povo, mas uma dinâmica de
encontro do povo para Deus e de Deus para seu povo. O movimento de Oxford
defendia um enriquecimento nesta relação, o que seria uma perda da qualidade litúrgica,
ao invés de enriquecê-la. Deste, entretanto, alguns chegaram a migrar para a
Igreja Católica Romana, abandonando a compreensão reformada da justificação
pela fé. Estes que bradavam pela pureza do anglicanismo, a abandonaram para ir
beijar o anel do papa de Roma.
Sobre o restrito uso do Livro de Oração Comum
(LOC), é preciso lembrar que não há apenas um, mas vários! Cada província tem autoridade
para fazer adaptações. Algumas províncias utilizam em seus LOC’s orações de
outros ramos da fé Cristã. Portanto, temos uma diversidade incrível em cada província,
diocese e paróquia. O Conselho Consultivo Anglicano (ACC)[3],
em sua resolução 36 de 1920 diz:
Embora se mantenha a autoridade do Livro de Oração Comum como
padrão anglicano de doutrina e prática, consideramos que a uniformidade
litúrgica não deve ser tomada como necessária nas Igrejas da Comunhão
Anglicana. As condições da Igreja em muitas partes do campo missionário tornam
inaplicável a preservação do Livro como um elo fixo de liturgia.
Como dito acima, flexibilidade sempre foi marca do
anglicanismo, sempre atento a sua missão no mundo.
Os herdeiros do movimento supracitado foram
chamados de “anglo-católicos”. O termo é muito ruim, porque catolicidade
ultrapassa de longe os pressupostos defendidos pelo movimento. Em todo o ocidente é muito difícil falar de
catolicidade sem que a maioria das pessoas façam automaticamente uma relação
imagética especifica a um tipo de plástica litúrgica atrelada a igrejas
específicas (romanas, ortodoxas e algumas anglicanas) confundindo alta liturgia
com catolicismo e reafirmando este arquétipo equivocado.
A quantidade de orações
lidas em um culto, se são espontâneas ou não, as datas das orações, a
quantidade de vertes litúrgicas, o tempo de culto, os gestos e formulas... tudo
isso está longe de ser um demarcador de catolicidade, de tocar o que, ao meu
ver, é um aspecto fundamental na catolicidade. Catolicidade litúrgica na Igreja
Anglicana é justamente relativo a sua elasticidade litúrgica, sua variabilidade
quanto a forma. Ao contrário do que muitos pensam, o movimento de Oxford não
captura a essência do que configura nossa catolicidade. A ideia de que um movimento poderia ter o monopólio da essência católica
é uma absurdidade dos termos! Não existe um anglicano mais católico que os
outros. Pode até haver alguns que estão mais próximos de Roma que de Cantuária,
ou mais ritualistas que outros, mas isto não toca a questão da catolicidade.
Os termos católico
e evangélico são “qualificações”[4]
e são indissociáveis no cristianismo. São marcas do corpo de Cristo e andam
sempre juntas. Evangelho é a mensagem
central que constitui as doutrinas cristãs e a catolicidade é o lugar de
recepção destas doutrinas. E a leitura do evangelho feita pela tradição da Igreja
também faz uma hermenêutica católica. Evangelho é a ideia central, mas católico acrescenta um qualificador
antirreducionista crucial, o qual proíbe que algum receptor isolado do Evangelho
se torne superior aos outros. Assim, ninguém pode dizer ser, isoladamente, a
única parte que possui ou compreende o Santo Evangelho de Jesus. Por isto o
Anglicanismo não se considera a única igreja, ou a melhor parte do corpo, mas
apenas mais um ramo histórico inserido na Igreja, a qual Cristo governa e
sustenta, para Sua própria glória.
Os anglicanos sempre tiveram uma ampla e diversa
variedade em toda pratica e compreensão teológica, mantendo um núcleo duro
central intacto, que é o quadrilátero de Lambeth: A bíblia, os Credos
(apostólico e Niceno), os sacramentos (Ceia e Batismo) e o Episcopado
histórico.
Um problema de definição
Se confunde muito a igreja alta (High Church), que tem um rigor litúrgico sofisticadíssimo e muito
elaborado, com um ramo “mais católico” da fé anglicana e, por consequência, a
igreja baixa (Low Church), que é um
ramo mais contemporâneo e que privilegia o diálogo com a cultura vigente, como “menos
católico”. As igrejas amplas (Broad Church)
estariam, dentro desta lógica, fazendo uma intercessão entre estas duas
corretes, preservando a antiga liturgia, mas com sérias adaptações e
criatividade. Entretanto, esta abordagem para medir a “catolicidade” trata-se
de um equívoco na utilização dos termos. Primeiramente porque temos bem mais
que “três modelos” na forma de viver a missão e o serviço cristão na Igreja Anglicana.
Há uma infinidade de propostas acontecendo.
Outra associação que não ajuda muito na compreensão da
catolicidade no anglicanismo é aquela que a relaciona diretamente aos anglo-católicos, tidos como mais
sacramentais e mais litúrgicos, o que não é verdade. Toda igreja anglicana é
sacramental e litúrgica. Algumas paróquias “mais evangelicais” realizam um serviço
litúrgico tradicionalíssimo. É um engano achar que a forma litúrgica de uma igreja está estritamente ligada à teologia
da diocese ou à ênfase teológica paroquial. Os termos comumente utilizados,
quando se referem à forma, à experiência missionária ou litúrgica nas paróquias
anglicanas, tendem a ser imprecisos e distantes de um real diagnóstico.
A plástica litúrgica é dinâmica, criativa, e, como em um
conversa, acontece um jogo simbólico entre todos os envolvidos. Cada conversa é
única e, da mesma forma, cada serviço litúrgico é único, por mais que se tente
uma execução extremamente padronizada, o que jamais foi possível.
CATOLICIDADE DA
CATOLICIDADE
Catolicidade é um termo amplo. É um conceito grande, apesar
de ter um significado direto bem simples. Ele é justamente o que garante a
unidade das complexidades na teologia cristã. Como afirma Vanhohoozer, “nenhuma denominação isolada ‘possui’
catolicidade: a catolicidade não é domínio exclusivo da igreja romana da mesma
forma que o evangelho não exclusivo dos evangélicos”[5].
Catolicidade é um conceito importantíssimo que serve como garantia
da inteireza da fé cristã, tem a ver com a integridade da fé do povo de
Deus. A fé cristã por vezes é reduzida
em alguns esforços para se realçar algumas características dessa fé,
cometendo-se o erro de fazê-lo em detrimento de outras nuances que dela são
partes essenciais. Catolicidade significa universalidade, completitude,
integralidade. Uma fé católica é uma fé atenta ao todo e que não privilegia as
partes. É por esse motivo que o renomado teólogo anglicano Alister McGrath
defende que o labor teológico deve ser também católico:
Nós precisamos da teologia para formarmos um relato
abrangente e crítico da fé, em vê de nos limitarmos á percepção, geralmente bem
subjetiva, que um indivíduo tem das coisas. Vários teólogos- como Cirilo de
Jerusalém (325-386) e Vladimir Lossky (1903-1958) – enfatizaram a
“catolicidade” da teologia cristã. O ponto deles é que o teólogo não é um dissidente
solitário, mas alguém que trabalha de maneira colaborativa, no Corpo de Cristo,
para construir uma compreensão completa do evangelho[6].
Os anglicanos são conhecidos como “católicos-reformados”, e
isto está correto. Mas a maneira em que a maioria apreende o termo está errada.
Ser um católico-reformado não significa ser uma mistura de um católico romano
(papista) com um evangélico-protestante, como se fosse um “meio termo” entre
duas coisas aparentemente contraditórias.
Os anglicanos não são um mix
destas duas coisas. O anglicanismo é um ramo histórico do cristianismo
particular: é a igreja dos celtas, que tem sua fase romana, que é uma união que
tem origem política, e não teológica, e que está presente em todo mundo em sua
fase reformada. A catolicidade da Igreja Anglicana nada tem a ver com o Papa,
nem com a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Católico aqui tem a ver com
os pilares que sustentam nossa fé, que são cristãos e não apenas anglicanos.
Como somos uma igreja credal, reiteramos, como pressuposto fundamental, o Credo
Niceno (325 d.C.) e o Credo Apostólico (c. Séc. VI). Por sermos uma igreja
bíblica, acreditamos no cânon do Velho Testamento – como foi organizado no
concilio judaico de Jâmnia, por volta do ano 100 d.C. –, com seus 39 livros[7]
e no Canon do Novo testamento, com seus 27 livros – como acreditam todos os
ramos do cristianismo. Então acreditamos que o povo de Deus é parte de uma só Igreja,
que somos um só povo, que temos os mesmos fundamentos de fé que nos garantem
ser uma igreja apostólica, Santa, Una e Católica. Quando dizemos que somos ao
mesmo tempo católicos e evangélicos, estamos seguindo o mesmo tom que Vanhoozer,
quando diz que “catolicidade significa a igreja no sentido do povo de Deus como
um todo disperso no espaço, através das culturas e ao longo do tempo. Cremos em
uma só igreja Católica. A unidade
evangélica da igreja é compatível com a diversidade católica. Assim, dizer
que a teologia deve ser católica é afirmar a necessidade de envolver a igreja
inteira no projeto da teologia, e não apenas partes”.
Quando o termo católico
representa uma pequena parte da igreja em detrimento do restante, perdemos a
integralidade, é preciso resgatar a catolicidade da catolicidade. A consciência
da plenitude católica nos deixará mais atentos para o pluralismo evangélico que
permeia o corpo de Cristo, inclusive para a presença necessária da
flexibilidade das formas na missão e no serviço do culto. Não existe uma plástica católica, mas uma profusão vasta de expressões
plásticas, históricas e doutrinárias.
Guilherme de carvalho nos alerta para uma coisa
importantíssima a respeito de catolicidade em um artigo sobre o tema no livro Igreja Sinfônica. Ele fala de “catolicidades”
– isso mesmo, no plural! –, e não apenas de catolicidade,
no singular, pois a inteireza da fé cristã começa com a compreensão integral do
“poder católico de Deus”, que deságua em compreensões católicas da dimensão
sociológica, cosmológica, confessional e temporal, da missão da igreja. Cito
aqui um pequeno trecho interessante:
Deus é, antes de tudo, universal. Deus (e o seu Verbo,
Palavra ou logos, cf. Jo 1.1-4,9) é o fundamento pessoal e a fonte da
inteligibilidade do mundo. Ele concede a vida e estabelece a vida e estabelece
a realidade; logo, não há vida nem contato com a realidade fora dele. Ele é a
luz de todo os homens, e toda a luz que os homens podem experimentar
vem dele. O apostolo Paulo escreve sobre essa suficiência de Cristo; “pois em
Cristo habita corporalmente toda a
plenitude da divindade, e, por estarem nele, que é o cabeça de todo poder e autoridade, vocês recebem
a plenitude” (Cl 2.9-10)[8]
(grifos nossos).
A compreensão desta catolicidade é urgente no cumprimento de
uma missão que queira ser integral. A Igreja de Cristo é convertida ao poder
total de Deus sobre todas as coisas. E
uma igreja não é menos ou mais católica quando usa uma determinada fórmula
litúrgica, mas quando perde a consciência holística da soberania divina.
Nossa liturgia precisa ser expressão de nossa riqueza doutrinaria. Nossa
música, poesia, canto, drama, pintura, escultura, arquitetura e dança precisam
ser verdadeiras expressões evangélicas. E isto deve ser feito também de maneira
católica, abrangente.
No universo anglicano existe um elemento chamado “jus liturgicum”, que é um poder
concedido ao Bispo Diocesano para a adaptação litúrgica – e isto sempre
aconteceu; não há nada de novo nisto! –, exatamente porque nossa missão não é
ser um museu do protestantismo, mas um anglicanismo para o tempo presente. E
justamente por isto, uma das grandes preocupações litúrgicas no anglicanismo de
hoje é a inculturação, ou seja, sua atualização dialógica em um mundo de
mudanças rápidas. Este assunto foi tratado na Consulta Internacional Anglicana
sobre Liturgia em 1989, em York. A Consulta baseou-se no Relatório e Resoluções
de Lambeth 88, sobre Cristo e Cultura.
Entre outras coisas, a Consulta indicou áreas em que é necessária a
inculturação: a) Linguagem, forma de pensamento, estilo de expressão; b) Vestes
clericais e leigas que procedam da cultura local; c) Música e hinos; d)
Arquitetura e Arte. A consulta de 1995[9]
segue as mesmas preocupações e interesses. Todo o esforço de adaptação
relacionando a missão cristã no mudo contemporâneo e tendo a perspectiva da
integralidade e da ortodoxia deve ser levado a sério, pois é daí que surge o
vigor de uma igreja viva relevante ao seu tempo.
Os princípios fundadores desta igreja, desde Elisabeth no
século 16, foram o de ser povo de Deus, reunido em torno da Escritura e dos Credos
católicos da Igreja indivisa e garantir a abrangência suficiente para que caiba
todos a quem Deus nos enviar, mantendo a capacidade de manter justaposições
variadas de fé e pratica, a disposição a concordar em diferir e concordar a se
amarem mesmo assim.
* Bacharel em Teologia, graduando em Filosofia pela UFES e reitor da Paróquia Anglicana Âncora (Igreja Âncora) em Vitória/ES e Belo Horizonte/MG.
[1]
É claro que no caso da teologia liberal costuma ser o contrário, preferem
formas rígidas e castradoras e negociam a essência como quem negocia laranjas
na feira.
[2]
Resolução 37, do relatório da Comissão
sobre Problemas Missionários feito pelo Conselho Consultivo anglicano ACC na
conferencia de 1920.
[3]
Criado pela conferencia de lambeth de 1968, é um dos instrumentos de unidade da
Comunhão Anglicana, formado por bispos, clérigos e leigos. Funciona como um
espaço de promoção de pesquisas, formação redes temáticas, grupos de trabalhos
para consultas de temas relevantes para a comunhão, cuida de relações
ecumênicas e criação de novas províncias.
[4]
Definição que Kevin j. Vanhoozer faz dos termos: católico e evangélico.
[5]
O drama da doutrina: uma abordagem
canônico-linguística da teologia cristã/ Kevin J. Vanhoozer; tradução de
Daniel de Oliveira – São Paulo: Vida Nova, 2016. Pg.44.
[6]
Teologia pura e simples; o lugar da mente na vida cristã/ Alister McGrath;
tradução de Meire Portes Santos – Viçosa, MG: Editora Ultimato, 2012. Pg. 24.
[7]
Há aqui um posicionamento explícito de continuidade com a tradição reformada na
rejeição da canonicidade dos demais livros e trechos do V.T. presentes na
Septuaginta – e adotados como canônicos pela ICAR e alguns outros ramos
históricos do cristianismo –, mas que não possuem seus originais em hebraico,
encarados, portanto, por judeus e protestantes como apócrifos, ou seja, no melhor significado do termo: suspeitos.
[8]
Igreja Católica: as dimensões da Missão in: Igreja
sinfônica: um chamado radical pela unidade dos cristãos / Pedro Lucas Dulci
[org.]. 1.ed. – São Paulo: Mundo Cristão, 2016. Pg. ??
[9] Em Dublin, Irlanda - 6 a 12 de agosto
de 1995.














Uma coisa importante que venho aprendendo ao longo desses 3 anos e meio no curso de Pedagogia na Faculdade de Educação da UFMG é que a Educação não acontece somente a partir daquilo que se fala e se trabalha num currículo, mas também a partir de coisas que dele se omite. Isso não é verdadeiro somente na escola, mas também na educação de filhos e em todas as relações sociais. O “não dito” é dito a partir daquilo que se diz. Um exemplo: não é comum se dizer numa escola que cabelo crespo é feio, mas isso fica explicito para crianças negras quando veem seus coleguinhas brancos de cabelo liso, loiro e olhos azuis serem elogiados com palavras do tipo: “vejam como ela é linda”, “Olha que pele branquinha! Dá vontade de morder!” ou “vejam como Deus abençoou esse menino com a beleza”, “vejam esses olhos azuis, que lindo!”, entre outras coisas. Uma criança negra percebe rápido que sua estética não é elogiada da mesma forma e faz uma operação lógica em sua mente: meu cabelo (assim como olhos, roupas, cultura, religião, etc.) não é bonito ou, a sociedade, os professores, meus coleguinhas, etc. não gostam da minha pele, do meu cabelo, da minha cultura, etc. Enfim, quero transpor esse tipo de educação do “dito pelo não dito” para minha condição como universitário cristão em uma Faculdade que, apesar de laica e voltada para a instrução através da pesquisa e da experimentação, tem certa abertura, tolerância e até um tipo de flerte com a espiritualidade. Na verdade para com qualquer espiritualidade, desde que não seja cristã. Alguém me disse isso? Não precisou! Tudo o que vejo e ouço na Faculdade (primeiramente por parte da instituição) a respeito de religião e espiritualidade são 1) duras críticas (a maioria desprovida de conhecimento bíblico, teológico, histórico ou antropológico) ao cristianismo, às igrejas (especialmente evangélicas) e à ética cristã; 2) palavras de respeito, exaltações e elogios à todo tipo de cultura, religião e espiritualidade de matriz africana, oriental, indígena, celta, entre outras, desde que não sejam cristãs. Nem preciso dizer como me sinto quando uma dança evangélica é questionada enquanto apresentação cultural na universidade, mas uma oferenda religiosa de matriz africana não. Não posso deixar de observar que toda cultura e religião “de minoria”, juntamente com toda prática de minorias que subvertem os valores cristãos recebem status e legitimidade simplesmente pelo fato de serem contra-hegemônicos e “de minoria”. Pouco ou nada são criticadas essas práticas, religiões e valores, que são observados a partir de um ponto de vista relativista cultural acrítico. E nesse caminho já vi professor elogiando a prática do assassinato de recém nascidos gêmeos e deficientes físicos praticadas por algumas tribos indígenas no Brasil. A inversão ética e moral é tamanha que um grupo de missionários cristãos que pegava essas crianças para cuidar foi criticado como sendo o verdadeiro monstro da história!
No meio disso tudo, sempre me recusando a ser um aluno medíocre e acrítico, sinto-me impelido, de alguma forma, a explicar, tanto a meus professores, quanto a amigos e colegas de curso e irmãos na fé, o motivo pelo qual continuo sendo cristão e, principalmente, porque me recuso hoje a ser um cristão medíocre dentro da universidade, ou seja, um cristão que não questiona, não critica e nem enfrenta toda essa estrutura. Gostaria de começar falando sobre as críticas mais comuns à minha fé e o porquê de elas não me afetarem e nem mudarem meu posicionamento de submissão incondicional à Cristo.
Eu não concordo com a forma como o Evangelho chegou e foi “anunciado” às Américas. Da mesma forma não concordo também com diversas formas como continua sendo pregado hoje em dia em aldeias, favelas, bairros, cidades, etc. Está muito mais pra uma imposição de cultura, especialmente uma cultura ocidental, puritana, branca, patriarcal, etc., transformando as práticas culturais, a culinária, as vestimentas, os tipos de relações afetivas, etc. No entanto, foi assim que o Evangelho chegou aqui! Ou, talvez melhor dizendo, chegou aqui APESAR DISSO TUDO. Cristo transcende toda essa bagunça histórica do ser humano e age no meio dela e por meio dela.
É por causa dessa clareza nas Escrituras que continuo acreditando na existência de um cristianismo essencial, puro e simples, mesmo diante de críticas que me dizem que o cristianismo é simplesmente uma construção social e histórica. Eu não nego essa faceta do que é o cristianismo logicamente. O cristianismo é um fenômeno divino, mas também humano. É o produto de uma fé que foi derramada por Cristo no coração de seres humanos falhos, infiéis, corruptos e negligentes que, como qualquer personagem da bíblia, cometeram erros e acertos diante do chamado divino. Mas o chamado continuou o mesmo. A Escritura continuou a mesma. O que Cristo disse está dito e, independentemente das tentativas de se "amenizar" ou distorcer a fim de "agradar gregos e troianos", isso se constitui na essência da fé cristã e não pode ser mudado! Eu acredito nesta essência e procuro conhecê-la cada vez mais, interpretá-la a cada dia, viver a partir dela, me criticar, me corrigir, me refazer...
E não é por causa da exploração realizada por cristãos ao longo da história e também nos dias atuais que eu abandonaria a fé cristã. Você já viu um comunista deixar de sê-lo por causa do fascismo, ditadura, intolerância, torturas e repressões comunistas nas diversas experiências comunistas ao redor do mundo? Ignorar isso é também uma atitude religiosa e irracional. Por que então se critica uma religião com séculos de existência com base em filosofias e movimentos que nem sequer saíram das fraudas da existência histórica? Será que isso não seria uma postura ideológica e irracional?
O cristianismo é um sistema de fé que, logicamente, acorda com diversas pautas e ideais desses partidos (sendo pioneiro inclusive na prática e pregação de diversos desses ideais) e também mantém com eles suas descontinuidades. No entanto, como um fenômeno humano, o cristianismo também é afetado pelo mal. E o mal está onde o ser humano estiver. O cristão entende pelas Escrituras e pela experiência que o homem é decaído de sua condição humana original e se encontra em um estado de depravação. O que a simplicidade do Evangelho sempre anunciou – independente de todas as discussões teológicas e interesses políticos – foi uma re-humanização do homem através de sua regeneração em Cristo Jesus, por meio do Espírito Santo e sua revelação das Escrituras. E é exatamente nas Escrituras que encontramos um ser humano não nascido debaixo da mesma corrupção que os demais, de forma que se tornou para nós um modelo real e vivo de humanidade. Isso está em seus atos, em sua compaixão, em suas curas, em seus milagres, em seus discursos, mas sobretudo em sua obra vicária na cruz do calvário.
Ali aquele ser humano perfeito morreu no lugar dos imperfeitos para que estes não fossem castigados eternamente por seus pecados. Mas não somente isso, esse ser humano perfeito ressuscita dos mortos e torna-se o penhor da Esperança cristã, ou seja, que TODOS NÓS RESSUSCITAREMOS um dia, de verdade! Não de mentirinha. Ele ressuscitou e provou à humanidade que há esperança para sua doença, ou seja, a ingratidão, idolatria, malícia, inveja, ódio... resumindo: o pecado! que está impregnado em cada ser humano que nasce em nosso mundo.
A fé e a conduta cristã são contrárias ao classismo, machismo, sexismo, racismo ou homofobia, não por uma tentativa ingênua (ou prepotente) de reconstruir a sociedade de maneira igualitária, mas porque, em Cristo, “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” – Gálatas 3.28). Nessas condições o homem não pode explorar sua mulher, pois ela é parte do mesmo corpo sagrado de Cristo, assim como ele – e na mesma medida que ele, pois ninguém é “mais corpo” do que o outro. Da mesma forma o escravo (proletário, assalariado, escravo ou o que for que se encaixe aqui) compreende que, em Cristo, ele é livre; e o senhor (patrão, rico, magnata ou quem quer que se encaixe aqui), em Cristo, também reconhece que é escravo do próprio corpo (escravo de Cristo) e, por isso, deve servir seu escravo (proletário, assalariado, etc.). Nesse sentido, a causa da militância do cristão é sua própria fé ou, no sentido em que diz o apóstolo Tiago, sua religião. Tudo tem sua justificativa ali. É sua fé que diz a ele até onde ele vai e onde deve parar. É sua fé que lhe indica por quem ou pelo quê deve lutar politicamente. Sua fé lhe diz o que é justo e o que é injusto.
Lutamos hoje contra essas manifestações em nós na forma de sentimentos e ações. Lutamos ao lado do outro e apoiamos a luta do oprimido (mulher, negro, homossexual, pobre, minorias, etc.). No entanto sabemos que somente na ocasião da chegada efetiva do Reino de Deus, todo o problema da opressão será real, efetiva e eficazmente resolvido. A mulher será plenamente livre das opressões de sexo e gênero, o pobre será livre de sua opressão econômica e receberá justiça, o ser humano será redimido, a identidade negra será realmente reconhecida e respeitada. E é exatamente por isso que não nos desanimamos da luta ou da vida no meio da caminhada, mesmo sentindo que todo nosso trabalho é como uma mera gota de água contra um incêndio florestal. É por causa da esperança da ressurreição que nos mantemos firmes e constantes na vida, na militância, na fé e no amor, sendo sempre abundantes na obra do Senhor (e entendemos toda militância justa como “obra do Senhor), sabendo que, no Senhor Jesus Cristo, nosso trabalho não é vão (I Coríntios 15.58).
Faz pouco tempo que alguns amigos e familiares comentaram surpresos comigo sobre a notícia de que a IPB - Igreja Presbiteriana do Brasil - havia lançado uma nota "considerando a Igreja Evangélica Verbo da Vida como seita". Também fiquei surpreso inicialmente, mas algo me intrigava com a notícia. Cheguei a achar até mesmo que poderia ser falácia ou algum mal entendido, no entanto, quando vi a quantidade de reportagens em diferentes blogs e sites de notícias sobre o "mundo gospel" - contendo ainda uma cópia do digesto da Secretaria Executiva da IPB - me dei conta de que a coisa era realmente séria! Minha segunda reação foi de indignação contra a IPB, afinal, "quem foi que deu à igreja presbiteriana autoridade para definir o que é seita (ou heresia) e o que não é?". No entanto, antes de me pronunciar neste blog em uma dura crítica à "prepotência da IPB", pensei: "Afinal, por que a IPB faria isso? Ela teria simplesmente escolhido a IEVV aleatoriamente só pra fazer um escracho público?" Resolvi consultar as fontes dos primeiros sites que publicaram a notícia. Isso me levou à plataforma 

Não posso terminar esse artigo sem deixar de dizer que, no período de dois anos em que convivi com o ministério Verbo da Vida, por ocasião do curso que fiz no CTB-Rhema Brasil, apesar de não concordar com grande parte de seus ensinamentos e de considerar muitos deles como heréticos e destruidores da genuinidade, da pureza e da humildade da fé cristã, a Igreja Evangélica Verbo da Vida é uma igreja cristã séria e de sincero comprometimento com as doutrinas bíblicas básicas, recitadas sempre na abertura das novas turmas do Centro de Treinamento Bíblico Rhema Brasil.