Últimas Reflexões

748046_98432589Quando penso na igreja evangélica hoje, me lembro da história da igreja cristã. Após a apropriação da ideia da universalidade da igreja levada ao extremos de centralização de seu governo em Roma, orientando suas práticas e culturas - como se devesse existir uma cultura especificamente cristã - e suprimindo todas as diferentes expressões culturais tocadas por Cristo Jesus, um poder hegemônico de representações, valores e visão de mundo foi se formando. Logicamente cada cultura dominante de seu tempo legitimava e imprimia ideologicamente seus valores através da igreja cristã ao longo da história numa marcha desumana em nome de Deus e do Homem.
Depois a igreja se divide entre protestantes, católicos, veterocatólicos e ortodoxos e essa dinâmica continua, muitas vezes de maneira ainda mais perversa entre os protestantes (normalmente mais radicais).
Hoje, o que vejo no Brasil é, nada mais nada menos que uma imposição descarada de uma ideologia meritocrática, paternalista, anti-esquerdista e declaradamente liberal americana (de liberalismo político e econômico - não estou falando de teologia liberal no momento). Esse corpo ideológico é imprimido através de pregações, músicas, teatros, evangelismo, etc. como se fosse a definição própria do que é "correto aos olhos de Deus". Criticar? Nem pesar! "A bíblia nos manda obedecer". Protestar? De maneira nenhuma! Afinal, "os rebeldes não vão entrar no reino dos céus!" Hoje até os "demônios" pregam nos púlpitos a moral esperada pelo sistema. O vídeo que se segue é um exemplo disso em um nível um pouco exagerado, mas que não isenta outras igrejas acabar por fazer o mesmo em suas práticas.
Provavelmente vou ouvir coisas como: "a igreja evangélica não é uma só" ou "aqui na minha igreja é diferente". Nesse caso, parabéns aos diferentes! Mas aos demais esclareço que o que estou afirmando é que, independentemente das diferenças denominacionais, a maioria das igrejas evangélicas carregam esses valores em comum, mesmo mantendo suas divergências teológicas e de usos e costumes. O que estou falando vai muito além desse tipo de divergência. Estou falando de um tipo de senso comum evangélico.
PROSTITUIÇÃO
Estou falando de um abandono do inconforto humano da igreja-instituição em seguir o Evangelho e de uma consequente prostituição da mesma com os valores mundanos.
O senso comum é tão forte que parece que essas interpretações de mundo estão escritas mesmo na bíblia! E o pior é ver os pastores dizendo que não podemos nos amoldar aos padrões "do mundo" enquanto essa própria igreja é a expressão e a escola dos valores mundanos individualistas, meritocráticos, moralistas e totalmente hipócritas. O que invariavelmente vem criando um sistema exclusivo de costumes e crenças e excludente de pessoas que não se amoldam ao mesmo. Esses são os "rebeldes", os "filhos do cão", os "picuinhas", como ouço com frequência.
E assim prossegue a marcha dessa coisa chamada de igreja, uma instituição que ao longo da história possui sempre a cara (histórica e cultural) da cultura hegemônica e ao mesmo tempo, por ser o lado "gospel" dessa cultura, fica totalmente separada do mundo - não no sentido de santidade - no disco voador de Gizuis. Fico triste em dizer isso porque sou cristão, mas não posso negar o que vejo. Pior do que isso é ser considerado normalmente um rebelde nesse meio. Me conforto somente ao lembrar que foi assim com os profetas, com João Batista, Jesus, Paulo, Lutero e os demais que lutaram minimamente contra esse conforto religioso de se amoldar à lógica mundana e abandonar a lógica da Graça.
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A questão aqui não é discernir se a sua igreja está nesse contexto, mas sim a que nível ela já está mergulhada no mesmo. Estou falando de algo que não é característica exclusiva de neopentecostais, de tradicionais ou ortodoxos. É característico de todas as igrejas ao longo da história. Espero que esta reflexão o leve pensar sobre você mesmo (a), sobre até que ponto você como ser humano psico-histórico-cultural e tocado (a) um dia pelo Evangelho de Cristo tem prostituído o que você é - nova Criação - com valores totalmente contrários à sua nova natureza em Cristo Jesus.
O que defendo a nível de igreja não é nem sua desinstitucionalização nem uma reforma da igreja institucional. Independentemente disso defendo o amor radical pelo próximo, pelos inimigos, pelos oprimidos em especial, pelos "diferentes" - até que todos percebam que o "sistema cultural evangélico" definitivamente não o os define completamente, pois estão carregados de culturas nas quais se identificam e essa diversidade é uma riqueza para Cristo e embeleza a IGREJA INVISÍVEL. Enfim, defendo o Evangelho e o Evangelho, por sua vez, defende a humanidade dos seres humanos.

J.M.S. Jr.
Postada em 10 de março de 2014 no Blog "Estou em Obras".
sao-patricioEsta oração foi escrita originalmente em Gaélico em meados do século V, provavelmente por São Patrício (se não foi por ele foi por alguém muito próximo das ideias dele). É, também, considerada a mais antiga expressão de poesia vernácula européia.

O que acho extremamente deslumbrante é a integralidade que o autor estabelece entre os acontecimentos relatados nas escrituras e a vida concreta do cristão hoje. São Patrício, como os salmistas da bíblia, vivia num mundo transparente, sacramental, onde podia ver Quem estava por trás de TUDO, vendo EM TUDO a misericórdia de Deus proporcionando vida e existência no mundo. Enfim, para ele, tudo o que vemos é um milagre constante de Deus, algo que precisa urgentemente ser resgatado pela teologia contemporânea, antes que a expectativa do "sobrenatural" tome conta da nossa noção da presença de Deus. Delicie-se com essa compreensão simples e integral do Evangelho e ore juntamente como o missionário que conquistou a Irlanda para Cristo no século V...

Levanto-me, neste dia que amanhece,

Por uma grande força, pela invocação da Trindade,
Pela fé na Tríade,
Pela afirmação da unidade
Do Criador da Criação.

Levanto-me neste dia que amanhece,
Pela força do nascimento de Cristo em Seu batismo,
Pela força da crucificação e do sepultamento,
Pela força da ressurreição e ascensão,
Pela força da descida para o Julgamento Final.

Levanto-me, neste dia que amanhece,
Pela força do amor dos Querubins,
Em obediência aos Anjos,
A serviço dos Arcanjos,
Pela esperança da ressurreição e da recompensa,
Pelas orações dos Patriarcas,
Pelas previsões dos Profetas,
Pela pregação dos Apóstolos
Pela fé dos Confessores,
Pela inocência das Virgens santas,
Pelos atos dos Bem-aventurados.

Levanto-me neste dia que amanhece,
Pela força do céu:
Luz do sol,
Clarão da lua,
Esplendor do fogo,
Pressa do relâmpago,
Presteza do vento,
Profundeza dos mares,
Firmeza da terra,
Solidez da rocha.

Levanto-me neste dia que amanhece,
Pela força de Deus a me empurrar,
Pela força de Deus a me amparar,
Pela sabedoria de Deus a me guiar,
Pelo olhar de Deus a vigiar meu caminho,
Pelo ouvido de Deus a me escutar,
Pela palavra de Deus em mim falar,
Pela mão de Deus a me guardar,
Pelo caminho de Deus à minha frente,
Pelo escudo de Deus que me protege,
Pela hóstia de Deus que me salva,
Das armadilhas do demônio,
Das tentações do vício,
De todos que me desejam mal,
Longe e perto de mim,
Agindo só ou em grupo.

Conclamo, hoje, tais forças a me protegerem contra o mal,
Contra qualquer força cruel que ameace meu corpo e minha alma,
Contra a encantação de falsos profetas,
Contra as leis negras do paganismo,
Contra as leis falsas dos hereges,
Contra a arte da idolatria,
Contra feitiços de bruxas e magos,
Contra saberes que corrompem o corpo e a alma.

Cristo guarde-me hoje,
Contra veneno, contra fogo,
Contra afogamento, contra ferimento,
Para que eu possa receber e desfrutar a recompensa.
Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim,
Cristo em mim, Cristo embaixo de mim, Cristo acima de mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao me deitar,
Cristo ao me sentar,
Cristo ao me levantar,
Cristo no coração de todos os que pensarem em mim,
Cristo na boca de todos que falarem em mim,
Cristo em todos os olhos que me virem,
Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.

Levanto-me, neste dia que amanhece,
Por uma grande força, pela invocação da Trindade,
Pela fé na Tríade,
Pela afirmação da Unidade,
Pelo Criador da Criação.

O que posso dizer depois de tudo isso? Amém. Glória a Deus por São Patrício. Espero encontrá-lo na eternidade...

J.M.S.Júnior.

Postada em 7 de dezembro de 2012 no Blog "Estou em Obras".
Creio que deva começar esclarecendo meu conceito de desilusão, antes que alguém o interprete desânimo ou decepção. Muito pelo contrário! Na verdade, um melhor conceito de desilusão seria o fracasso da ilusão, ou seja, a libertação de um estado de ilusão. Neste sentido eu diria que a desilusão é sempre benéfica. Jesus disse: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8.32). O conhecimento de Cristo nos desilude - rompe as trevas de nossas ilusões - e nos faz ver a realidade tal como ela é. O problema relacionado à desilusão é a reação do desiludido em face da mesma. A minha é de felicidade e, por isso, gostaria de compartilha-la com você.

Estou feliz porque a Verdade dissipou minha ilusão de ser um super-homem espiritual e me fez compreender a dupla realidade a respeito de mim mesmo: santo e pecador. Pecador porque do crivo de Deus ninguém escapa (Rm 3.23; 6.23) e santo, única e exclusivamente por causa da Obra de Jesus Cristo na Cruz do Calvário que, segundo a palavra da Verdade, me santificou (Hb 13.12). Essa realidade me colocou aos pés de Cristo para sempre e também me libertou de toda ilusão a respeito de meus próprios esforços no sentido de alcançar a salvação (Is 64.6; Efésios 2.1-6).

Estou feliz por que a Verdade destruiu minha ilusão de tentar descobrir MEU dom espiritual e também da ilusão de acreditar que pudesse possuir algum. A Palavra humildemente me disse que os dons são “DO ESPÍRITO SANTO” e não meus. Assim posso me contentar e me alegrar pela honra de ser um mero instrumento usado pelo Espírito de Deus para os fins escolhidos por Ele mesmo, e na hora que Ele quer (I Coríntios 12).

Estou feliz por que a Verdade implodiu minha ilusão de sumo-sacerdócio, achando que podia - e devia - ficar consagrando tudo à Ele - desde o Brasil, os dias da semana, até a natureza e os objetos de uso pessoal. A Palavra me disse gentilmente que TUDO já é Dele, é por meio Dele e é para Ele. É por isso que a glória é Dele. "Quem primeiro deu a Ele, para que lhe venha ser restituído?" (Rm 11.35).

Estou feliz por que a Verdade me libertou da ilusão do sobrenatural - daquela necessidade de ver coisas extraordinárias acontecendo para continuar acreditando em Deus. A Palavra me diz que Deus criou todas as coisas e que tudo o que vejo ao meu redor é um constante milagre, uma obra de arte constantemente pintada pelo Grande Artista (Gênesis 1; Salmo 104; Romanos 11.36), de forma que as coisas mais simples que vejo hoje - desde a florzinha que nasce na calçada ao sorriso de uma criança - têm o incontestável poder de me encantar com meu Criador.

Estou feliz porque a Palavra destruiu minha ilusão de encontrar em um modelo judaico, americano ou australiano, uma melhor forma de adorar a Deus. Jesus Cristo santificou minha oferta diante de Deus e traduziu o meu jeito “esquisito” de ser, meu estilo, minha cultura e até meu Rock and Roll em incenso de cheiro suave e agradável às Suas narinas (Romanos 15.16). Juntamente com isso a Palavra me fez entender que santidade não é sinônimo de cultura, usos e costumes, mas é o fruto da obra de Jesus Cristo em cada área da vida daquele que Nele acredita.

Estou feliz por que a verdade me libertou da ilusão de viver preocupado com a manutenção de minha salvação, como se dependesse de mim ser, não ser ou continuar sendo salvo. A Palavra de Deus gentilmente me mostrou que não sou eu quem sustenta minha salvação, mas somente Deus. Ele iniciou o processo e o completará com êxito (João 10.28; Romanos 8.30; 9.16).

Juntamente com isso, fui liberto da ilusão de correr desesperadamente atrás de dinheiro na esperança de prover minhas necessidades mais básicas: comer e me vestir. Jesus me disse que Deus é quem providencia, de graça, vestes e alimentos a seres que, além de valerem muito menos que os seres humanos para Deus, nem trabalham, nem tecem, nem semeiam, nem ceifam e nem ajuntam em celeiros (Mateus 6.25-33). Isso não foi para mim uma desculpa para não trabalhar, mas, pelo contrário, re-signifiquei minha compreensão sobre o trabalho. Todo trabalho é para a glória de Deus, por isso devo fazer bem feito (I Co 10.31). No entanto, independentemente do salário, Deus é meu provedor - por meio de meu salário, de meu emprego ou por meio de quaisquer outras fontes que Ele queira usar para providenciar o que for preciso.

Alguns acham que minha fé se enfraqueceu. Se por fé estão entendendo aquele frenesi dominical de jogar todo mundo no chão e me retorcer emotivamente ao som de um mantra gospel, felizmente sim. Estou desiludido disso tudo! Mas se por fé estamos falando da convicção de fatos que não se veem e da certeza das coisas que se esperam (Hb 11.1), aí sim! Na verdade a minha está agora muito mais sólida, muito mais bíblica, muito mais racional. E não posso deixar de dizer que minha razão também está muito mais crente - Hehehehehehe.

Não estou perfeito. Graças a Deus, disso nunca me iludi.

A verdade é que, como diz um poeta mineiro, “estou em obras" e "esta morada um dia será perfeição”. Fique com essa maravilhosa canção, seja desiludido por Jesus Cristo e viva feliz para sempre com Ele!

Soli Deo Gloria.

J.M.S.Jr.

Publicada originalmente em 29 de novembro de 2012 no Blog "Estou em Obras". Editada em 07 de março de 2016.