

Critica-se a fé cristã hoje em dia por diversos motivos. Pela forma como os portugueses, espanhóis e ingleses chegaram à américa, pela forma como convertiam os índios, etc., por causa das cruzadas, por causa do fundamentalismo atual na política e na sociedade, pela chatice evangélica, pela bizarrice e exploração dos neopentecostais, entre diversos outros motivos. Fazendo isso ignoramos todo o bem que a fé cristã já fez à humanidade, como por exemplo: a criação da universidade, dos hospitais (diga-se de passagem, instituições que não foram criadas por reivindicações políticas populares, mas por iniciativas de mentes iluminadas pela ética da fé em Cristo), a ideia de direitos humanos inalienáveis e, consequentemente, a abolição da escravatura (especialmente na Inglaterra), os movimentos contra o apartheid na África do Sul, o trabalho de Martin Luther King em prol do reconhecimento da igualdade racial nos EUA, o ideal de compaixão na idade média que impedia os bárbaros de destruir as igrejas e quem estivesse dentro delas nas invasões ao império romano, dentre muitas outras coisas.
Ignora-se também, de igual modo, que os “povos oprimidos” pelo cristianismo, eram também opressores entre si, tinham práticas que ofendiam a dignidade humana (abortos, sacrifícios humanos, antropofagia, assassinato de deficientes e gêmeos, escravização de outros povos, racismo, machismo, homofobia, alienação religiosa, política, moral, etc.), coisas que poderiam e deveriam ser esclarecidas pelo Evangelho de forma a preservar, cultivar e melhorar as próprias culturas indígenas que aqui se encontravam antes da invasão europeia e se encontram até hoje.

E Sua missão continua sendo a mesma: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4.18,19). É por causa da essência dessa missão que o apóstolo Tiago, irmão de Jesus, adverte a igreja de seu tempo com as seguintes palavras: “Se alguém cuida ser religioso e não refreia a sua língua, mas engana o seu coração, a sua religião é vã. A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo” – Tiago 1.26,27. Nada disso mudou ao longo dos 20 séculos de existência da fé cristã. Tudo o que passou disso foi desobediência ao propósito de Deus e tudo o que ficou aquém disso foi negligência diante de seu santo chamado.
É por causa dessa clareza nas Escrituras que continuo acreditando na existência de um cristianismo essencial, puro e simples, mesmo diante de críticas que me dizem que o cristianismo é simplesmente uma construção social e histórica. Eu não nego essa faceta do que é o cristianismo logicamente. O cristianismo é um fenômeno divino, mas também humano. É o produto de uma fé que foi derramada por Cristo no coração de seres humanos falhos, infiéis, corruptos e negligentes que, como qualquer personagem da bíblia, cometeram erros e acertos diante do chamado divino. Mas o chamado continuou o mesmo. A Escritura continuou a mesma. O que Cristo disse está dito e, independentemente das tentativas de se "amenizar" ou distorcer a fim de "agradar gregos e troianos", isso se constitui na essência da fé cristã e não pode ser mudado! Eu acredito nesta essência e procuro conhecê-la cada vez mais, interpretá-la a cada dia, viver a partir dela, me criticar, me corrigir, me refazer...


Logicamente terei também de responder a seguinte questão: por que então seria o cristianismo uma melhor proposta, visto que, como no comunismo, no capitalismo, no liberalismo e em todas as religiões existentes, ela também é “infectada” pela presença do mal? Primeiramente é necessário entender que o cristianismo não é um partido político ou uma alternativa ao socialismo, ao capitalismo, comunismo, liberalismo, etc.
O cristianismo é um sistema de fé que, logicamente, acorda com diversas pautas e ideais desses partidos (sendo pioneiro inclusive na prática e pregação de diversos desses ideais) e também mantém com eles suas descontinuidades. No entanto, como um fenômeno humano, o cristianismo também é afetado pelo mal. E o mal está onde o ser humano estiver. O cristão entende pelas Escrituras e pela experiência que o homem é decaído de sua condição humana original e se encontra em um estado de depravação. O que a simplicidade do Evangelho sempre anunciou – independente de todas as discussões teológicas e interesses políticos – foi uma re-humanização do homem através de sua regeneração em Cristo Jesus, por meio do Espírito Santo e sua revelação das Escrituras. E é exatamente nas Escrituras que encontramos um ser humano não nascido debaixo da mesma corrupção que os demais, de forma que se tornou para nós um modelo real e vivo de humanidade. Isso está em seus atos, em sua compaixão, em suas curas, em seus milagres, em seus discursos, mas sobretudo em sua obra vicária na cruz do calvário.
Ali aquele ser humano perfeito morreu no lugar dos imperfeitos para que estes não fossem castigados eternamente por seus pecados. Mas não somente isso, esse ser humano perfeito ressuscita dos mortos e torna-se o penhor da Esperança cristã, ou seja, que TODOS NÓS RESSUSCITAREMOS um dia, de verdade! Não de mentirinha. Ele ressuscitou e provou à humanidade que há esperança para sua doença, ou seja, a ingratidão, idolatria, malícia, inveja, ódio... resumindo: o pecado! que está impregnado em cada ser humano que nasce em nosso mundo.


Dessa forma a fé cristã anuncia que o Espírito Santo prometido por Cristo Jesus já atua em nossos corações, tratando diretamente no lugar de onde vem cada um desses maus desejos, a raiz do ódio, do racismo, do machismo, da homofobia, do desrespeito à cultura, da opressão, enfim, de tudo o que nos desumaniza. O cristão é um ser humano que se critica (ou pelo menos deve ser). Ele revê suas atitudes a todo instante e pensa como poderia agir melhor a fim de glorificar a Deus, nosso Pai e agradecê-lo por haver nos salvado de sua própria ira através do sangue de Jesus Cristo, seu único Filho.
Nesse sentido, o cristianismo é a religião da gratidão – um golpe fatal na raiz do pecado, segundo o apóstolo Paulo: a ingratidão (Rm 1.21) – de forma que o cristão ama o próximo não por um instinto de preservação da espécie, mas porque Deus o amou primeiro e ele agradece seu amor amando o outro. Da mesma forma o cristão perdoa as ofensas dos outros, não por uma tentativa inútil de se mostrar emocionalmente mais forte, mas porque ele foi perdoado de uma dívida impagável. Agora ele retribui esse perdão perdoando.
A fé e a conduta cristã são contrárias ao classismo, machismo, sexismo, racismo ou homofobia, não por uma tentativa ingênua (ou prepotente) de reconstruir a sociedade de maneira igualitária, mas porque, em Cristo, “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” – Gálatas 3.28). Nessas condições o homem não pode explorar sua mulher, pois ela é parte do mesmo corpo sagrado de Cristo, assim como ele – e na mesma medida que ele, pois ninguém é “mais corpo” do que o outro. Da mesma forma o escravo (proletário, assalariado, escravo ou o que for que se encaixe aqui) compreende que, em Cristo, ele é livre; e o senhor (patrão, rico, magnata ou quem quer que se encaixe aqui), em Cristo, também reconhece que é escravo do próprio corpo (escravo de Cristo) e, por isso, deve servir seu escravo (proletário, assalariado, etc.). Nesse sentido, a causa da militância do cristão é sua própria fé ou, no sentido em que diz o apóstolo Tiago, sua religião. Tudo tem sua justificativa ali. É sua fé que diz a ele até onde ele vai e onde deve parar. É sua fé que lhe indica por quem ou pelo quê deve lutar politicamente. Sua fé lhe diz o que é justo e o que é injusto.

No entanto, não posso concluir sem dizer que, como Cristão - e PORQUE SOU CRISTÃO -, também sou um sujeito desiludido. O Cristão não se ilude com a ideia de que ele próprio irá trazer o Reino de Deus – a paz e a harmonia total esperada pelo mundo – seja através do comunismo, do anarquismo, do liberalismo ou mesmo do cristianismo. Ele aguarda algo real que lhe foi prometido e demonstrado por Cristo Jesus: a Ressurreição, onde nossos corpos se livrarão da corruptibilidade e, juntamente com a morte, o pecado será definitivamente vencido em nossas vidas, além de todas as suas manifestações que hoje não podemos ignorar que, em diversas medidas, estão impregnadas em nós: ódio, inveja, ciúmes, ingratidão, machismo, racismo, homofobia, xenofobia, exploração, escravidão, entre outras formas de opressão religiosa, sexual, de gênero, racial, social, etc.
Lutamos hoje contra essas manifestações em nós na forma de sentimentos e ações. Lutamos ao lado do outro e apoiamos a luta do oprimido (mulher, negro, homossexual, pobre, minorias, etc.). No entanto sabemos que somente na ocasião da chegada efetiva do Reino de Deus, todo o problema da opressão será real, efetiva e eficazmente resolvido. A mulher será plenamente livre das opressões de sexo e gênero, o pobre será livre de sua opressão econômica e receberá justiça, o ser humano será redimido, a identidade negra será realmente reconhecida e respeitada. E é exatamente por isso que não nos desanimamos da luta ou da vida no meio da caminhada, mesmo sentindo que todo nosso trabalho é como uma mera gota de água contra um incêndio florestal. É por causa da esperança da ressurreição que nos mantemos firmes e constantes na vida, na militância, na fé e no amor, sendo sempre abundantes na obra do Senhor (e entendemos toda militância justa como “obra do Senhor), sabendo que, no Senhor Jesus Cristo, nosso trabalho não é vão (I Coríntios 15.58).

Enfim, é por meio desses e muitos outros motivos que o Espírito de Deus continua me fazendo perseverar na fé em Cristo.
Em Cristo,
Jaime M. S. Júnior
Publicado em 29 de novembro de 2015 no Blog "Estou em Obras".
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